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  • Raphael Vieira

Da foto impressa ao NFT: A jornada da fotografia na era digital

Atualizado: 3 de fev.


1) A foto impressa e o poder da fotografia


© 2009 Raphael Vieira

Eu cresci em um mundo onde as fotografias eram produzidas e consumidas no formato impresso. A tecnologia digital já estava sendo desenvolvida e progredindo nos bastidores, mas aquele ainda era um mundo analógico para a maioria das pessoas. Jornais, revistas e televisão eram os principais meios de acessar as notícias, o entretenimento e a publicidade. Ao invés de abrir o Google ou o Instagram no seu celular, você ia até a banca de revistas.


A maneira através da qual éramos expostos às fotos era diferente, mas a fotografia servia funções sociais semelhantes em essência ao que nós temos hoje em dia. Ela não apenas transmitia as notícias, mas ajudava a transformar a opinião pública através de um trabalho editorial e de curadoria cuidadoso - quais fotos publicar ou não, assim como decisões deliberadas por parte do fotógrafo sobre como compor e o que mostrar em suas imagens. Além disso, a fotografia também servia como um veículo para anunciar produtos ou serviços, instigando o nosso desejo e abrindo as nossas carteiras.


Fotografias tem o poder de formar opiniões, expressar ideologias e promover estilos de vida. Isso não mudou. É por isso que temos iniciativas como o Reading the Pictures (“Lendo as Fotos”), uma organização que começou em 2001 e é dedicada à cultura visual e à “alfabetização” das pessoas para a mídia visual através da análise cuidadosa das notícias, documentários e imagens nas mídias sociais. Eles acreditam que na medida em que as fotos se tornam mais numerosas e prevalentes a cada ano, cresce a necessidade de educar a população sobre como “ler” as nuances de narrativa e significado nas mídias visuais.

Obviamente que na era analógica, este poder formador de opiniões da fotografia era muito mais centralizado e concentrado nas mãos de umas poucas corporações de mídia no Brasil e no mundo. Estes poucos conglomerados tinham o poder de ditar para a população o que eles podiam ver ou não, quais notícias eram relevantes e qual arte era aceitável. Você também precisava de muito mais dinheiro se quisesse anunciar seus produtos ou sua empresa nas revistas ou na televisão. O mercado não era tão aberto para os pequenos negócios.


Não era muito fácil ter acesso a tudo que a fotografia tinha para oferecer também. Nós éramos limitados pela curadoria das revistas, galerias de arte e competições fotográficas oficiais. Geralmente o gosto subjetivo de uns poucos críticos e editores que decidiam o que o mundo poderia e deveria ver da mídia fotográfica. Mas tudo isto estava prestes a mudar de maneira radical.


1) A era digital e as mídias sociais


© 2014 Raphael Vieira

O advento da revolução digital trouxe consigo mudanças marcantes para a fotografia. Mas foi mais especificamente a ascensão das redes sociais que transformou de maneira completa a antiga dinâmica centralizada da mídia fotográfica. Mesmo que muitas das grandes corporações de mídia tenham permanecido no topo, as oportunidades de compartilhamento e descoberta de imagens e conteúdo cresceram dramaticamente e modificaram todo o cenário, abrindo um novo espaço para fotógrafos independentes e pequenas empresas. Houve uma explosão de influenciadores digitais, criadores de conteúdo, canais de notícia independentes e pequenos negócios.


De repente, fotógrafos que antes eram desconhecidos ganharam dúzias ou até centenas de milhares de seguidores e uma imensa visibilidade nas redes sociais como o Instagram. Dicas e técnicas puderam ser compartilhadas mais facilmente e de maneira muito mais rápida também, o que contribuiu para uma aprendizagem facilitada e acelerada. De certo modo, podemos dizer que o acesso à fotografia se tornou mais democrático.


Mas como nada é perfeito, apesar de todas essas vantagens, as redes sociais também possuem suas limitações e um lado mais sombrio. Estamos falando dos famigerados algoritmos, que ditam e determinam o que aparece no seu feed e nas suas recomendações. Ao invés de apenas editores e curadores, nós agora temos o todo poderoso algoritmo decidindo o que você vê e consome.


É uma maneira mais descentralizada e adaptada às nossas preferências individuais, mas ainda assim estes algoritmos seguem um critério primário: eles vão priorizar o conteúdo que maximize seu engajamento e tempo gasto na plataforma. E isso vem com toda uma bagagem já muito conhecida e discutida de notícias falsas, click baits (“caça-cliques”), conteúdos que geram polêmica e ódio, fotos falsas e manipuladas e tudo mais que possa despertar o interesse e o engajamento dos usuários. É um verdadeiro vale tudo pela atenção das pessoas.


Ainda sobre esta questão de notícias falsas e fotos manipuladas, temos como exemplo o brilhante trabalho de Jonas Bendiksen em seu livro fotográfico The Book of Veles. Jonas fez uma matéria fotojornalística sobre a indústria das fake news na Macedônia. Sem dizer nada a ninguém, ele utilizou fotos falsas de pessoas falsas, tudo gerado no computador, como uma forma de abordar o tema. Por um tempo, conseguiu enganar toda a comunidade de fotógrafos e jornalistas, que não puderam identificar suas fotos como sendo falsas, antes de finalmente revelar a verdade sobre o projeto.


O trabalho de Bendiksen é um território fértil para uma discussão sobre a manipulação digital de fotografias e como conseguir identificar se uma imagem é real ou não. Com o avanço da tecnologia, se torna cada vez mais difícil determinar com certeza se uma foto é manipulada ou “real”. Existem estudos científicos demonstrando que imagens falsas podem gerar mudanças reais e concretas na memória humana. As pessoas irão se lembrar de fotografias falsas como eventos reais, mesmo quando são alertadas para a possibilidade de que o que estão vendo é falso.


Apesar das montagens e manipulações fotográficas existirem desde a época analógica do filme e da sala escura, o ambiente digital tornou a edição e manipulação de fotos extremamente fácil e acessível a todos. Mesmo fora do nicho do fotojornalismo, as fotos mais populares que viralizam no Instagram costumam mostrar paisagens quase surreais, com cores exuberantes e céus falsos que simplesmente não existem no mundo real, além de retratos de influenciadores e modelos com pele e curvas para além da perfeição.


A discussão aqui não tem por objetivo julgar se esse tipo de manipulação é um problema ou simplesmente uma evolução natural do tratamento de imagens. Ao invés disso, estamos apenas afirmando que essa “fronteira” entre a fotografia e a manipulação de imagens como arte ou ilustração digital está cada vez mais tênue e difícil de separar. E isto nos leva para o próximo tópico: os avanços na fotografia computacional.


1) O smartphone e a fotografia computacional


© 2018 Raphael Vieira

Seria impossível deixar de falar sobre a influência monumental que as câmeras dos smartphones tiveram sobre a fotografia em nossa sociedade atual. A empresa de consultoria Rise Above Research estima que cerca de 1.13 trilhões de fotos foram tiradas em 2020, e esse número chega a incluir uma queda de 15% causada pela pandemia. Entre 2010 e 2019, foram tiradas sete vezes mais fotos do que na década anterior.


Este número não é apenas impressionante, mas é o resultado direto do aumento do uso de smartphones em nossa sociedade. A estimativa é que 6.37 bilhões de pessoas possuíam smartphones em 2021, o que é quase 81% da população global! Este número é ainda mais alto quando incluímos os modelos mais antigos de telefones celulares, com 7.10 bilhões de usuários, cerca de 90% da população mundial. E muitos destes celulares antigos também possuem câmeras fotográficas.


A câmera fotográfica Kodak Brownie de 1900 é amplamente mencionada na história da fotografia como sendo a primeira tentativa de trazer a fotografia para a rotina diária do cidadão comum. Ela tinha um preço mais acessível, controles simplificados, e um formato portátil. Mas mesmo tendo sido considerada um sucesso comercial, apenas 150 mil Brownies foram vendidas no primeiro ano de produção.


Foi realmente o smartphone que silenciosamente colocou a fotografia nas mãos de quase 90% da população global e transformou o ato de tirar fotos em uma parte integral de suas vidas diárias. E como se isso não fosse suficiente, as câmeras de smartphones também estão começando a liderar os avanços em pesquisa e tecnologia, principalmente na área de fotografia computacional.


No início, as câmeras dos smartphones tinham sérias dificuldades em competir com as câmeras dedicadas do mercado fotográfico, como as DSLRs ou até mesmo as compactas. Isto devido às limitações no tamanho de seus sensores e lentes. Mas com o passar dos anos, estas limitações foram superadas, em grande parte graças aos avanços na fotografia computacional e inteligência artificial. Seus sensores, que não possuem obturador, são incrivelmente rápidos e capazes de tirar várias fotos simultaneamente quando você aperta o botão disparador. A tecnologia computacional faz a sua parte e combina estas fotos em uma imagem final de alta resolução e faixa dinâmica, com pouquíssimo ruído. Os smartphones mais modernos possuem uma qualidade de imagem muito alta, de tal maneira que só pode ser ultrapassada pelas câmeras profissionais do formato “full frame” após um tratamento dos arquivos RAW em programas de tratamento de imagens.


E isto é apenas um exemplo de quão avançadas as câmeras de smartphone são hoje em dia. Os modelos mais recentes de câmeras profissionais mirrorless (sem espelho) parecem estar seguindo esta direção da fotografia computacional também. A Nikon Z9 lançada no final de 2021 causou comoção ao se tornar a primeira câmera profissional que não faz uso de um obturador mecânico e é capaz de atingir uma velocidade de sensor altíssima.



1) NFTs e o futuro da fotografia


© 2008 Raphael Vieira

A maioria das fotografias hoje em dia são consumidas no formato digital, geralmente nas pequenas telas dos smartphones. Isto obviamente impactou o fluxo de trabalho dos fotógrafos, mas, além disso, também afetou até mesmo o aspecto artístico e estético da captura de imagens. Como exemplos disso temos desde a escolha pelo formato vertical que se encaixa melhor na tela do celular e nos feeds das mídias sociais, até uma nova preferência por imagens mais gráficas e contrastadas que tendem a se destacar mais na tela pequena e consequentemente ganhar mais cliques e engajamento.


E agora os NFTs (ou tokens não-fungíveis) parecem representar o próximo passo na evolução do consumo de imagens e coleção de arte digital. Este artigo não vai entrar em muitos detalhes sobre o conceito de NFTs – se você ainda não conhece essa nova tecnologia, pode ler mais sobre o assunto aqui. Mas de maneira bem resumida, os NFTs têm permitido que fotografias e outras obras de arte digital sejam vendidas e colecionadas como se fossem edições limitadas das tradicionais fotografias impressas da era analógica.


Por trás dos NFTs está a tecnologia de blockchain, que permite o uso de um contrato inteligente (ou smart contract) toda vez que um NFT é vendido online. Este contrato garante que um NFT específico se torne uma edição limitada com um número de cópias a ser determinado pelo artista. Uma vez que a venda deste número de cópias é alcançada, ele não pode mais ser vendido, apenas cópias já existentes poderão ser revendidas pelos donos atuais. Não apenas isso, mas o fotógrafo pode especificar uma taxa de porcentagem sobre os diretos autorais do NFT, assim cada vez que ele for revendido, o artista automaticamente receberá uma parte do lucro.


Alguns fotógrafos já estão lucrando e até mesmo tirando uma boa parte de seu sustento da venda de NFTs. E isto é apenas uma pequena parte do que NFTs e contratos inteligentes podem fazer. Muitos criadores de conteúdos e influenciadores digitais já estão usando contratos inteligentes de maneiras mais criativas dentro de suas comunidades de seguidores. Apenas como um exemplo, você pode criar um projeto onde cada NFT vendido confere ao dono daquele NFT acesso a conteúdos exclusivos, cursos ou tutoriais privados, convites a eventos presenciais ou até mesmo vídeo conferencias ou encontros pessoais com o artista.


Atualmente existem muitas críticas aos NFTs, primariamente por causa de um número crescente de golpes e plágios, pela falta de fiscalização e pelo impacto danoso que eles causam ao meio ambiente devido ao número de computadores ao redor do mundo que são necessários para manter o blockchain funcionando. A questão é controversa e complexa, mas os números não mentem: 41 bilhões de dólares foram gastos com NFTs em 2021, comparado com os 50 bilhões de dólares do mercado de arte tradicional em 2020. Estes números são impressionantes. Diversas empresas globais gigantescas já estão aderindo a essa “onda”, tal como a Coca-Cola, Nike e Disney.

O futuro está aqui. A maneira como nós produzimos e consumimos fotografias têm mudado gradualmente desde a época analógica até a presente era digital. Mas o que não mudou nestas últimas décadas foi a função da fotografia. Nós ainda tiramos fotos pelo seu valor sentimental e para nos recordar de eventos importantes, para compartilhar nossas vidas com amigos e conhecidos, para informar e promover valores e ideologias, para inspirar e expressar nossas emoções e ideias. E para atingir todos esses objetivos, a melhor maneira continua sendo o uso cuidadoso e criativo das várias técnicas de composição e iluminação fotográfica, independente de qual câmera você está usando – seja o último modelo de uma câmera profissional mirrorless, uma antiga SLR analógica, ou simplesmente seu smartphone.

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